Dia do Folclore: de Monteiro Lobato às tradições de Caçapava, o Vale do Paraíba também faz parte dessa história
Celebrado em 22 de agosto, o Dia do Folclore recorda muito mais do que personagens como Saci, Cuca, Iara e Curupira. No Vale do Paraíba, a data também revela uma história que passa por Monteiro Lobato, Taubaté, Caçapava, cultura caipira e tradições que continuam vivas de geração em geração.
Quando falamos em folclore brasileiro, rapidamente aparecem na memória o menino de uma perna só e gorro vermelho, a assustadora Cuca, a encantadora Iara e o protetor das florestas, Curupira.
Mas de onde vieram essas histórias? E o que elas têm a ver com Caçapava e o Vale do Paraíba?
A resposta revela uma ligação regional muito mais interessante do que parece.
Quatro personagens, muitas origens
O folclore brasileiro nasceu do encontro de diferentes culturas. Povos indígenas, africanos e europeus deixaram histórias, crenças e personagens que, ao longo dos séculos, foram se transformando até chegar às versões que conhecemos hoje.
O Saci-Pererê, por exemplo, provavelmente surgiu entre povos Guarani no Sul do Brasil. Com o passar do tempo, sua história incorporou elementos de outras culturas e se espalhou pelo país. A imagem do menino negro, de uma perna só, com gorro vermelho, cachimbo e espírito brincalhão tornou-se um dos maiores símbolos do nosso folclore.
A Cuca possui raízes ligadas à tradição portuguesa e ibérica. Originalmente era uma figura assustadora associada ao universo infantil. No Brasil, ganhou novas formas até se transformar na famosa criatura que tantas gerações conheceram.
A história da Iara também é resultado desse encontro cultural. O imaginário da Mãe-d’Água está fortemente ligado à cultura indígena e aos rios brasileiros, enquanto a representação da mulher-peixe que encanta com seu canto também incorporou características das antigas sereias europeias.
Já o Curupira é uma das figuras mais antigas de origem indígena do folclore brasileiro. Há registros escritos sobre ele desde 1560. Com os pés voltados para trás e cabelos cor de fogo, tornou-se conhecido como defensor das matas e dos animais.
Monteiro Lobato ajudou a levar o folclore para todo o Brasil
É nesse ponto que o Vale do Paraíba ganha papel de destaque.
Nascido em Taubaté, em 1882, José Bento Monteiro Lobato tornou-se um dos mais importantes nomes da literatura infantil brasileira.
Em 1917, Lobato realizou uma pesquisa pioneira perguntando aos leitores o que sabiam sobre o Saci. As respostas chegaram de diferentes regiões do país e deram origem, em 1918, ao livro O Saci-Pererê: resultado de um inquérito.
Três anos depois, em 1921, o escritor publicou O Saci, levando Pedrinho para uma aventura pela floresta e colocando diferentes figuras do folclore brasileiro dentro do universo do Sítio do Picapau Amarelo.
Foi dessa maneira que personagens antes conhecidos principalmente por meio da tradição oral ganharam livros, ilustrações e, posteriormente, rádio, cinema e televisão.
O Sítio do Picapau Amarelo está ligado ao Vale
No Vale do Paraíba existem pelo menos dois espaços profundamente ligados à memória de Monteiro Lobato.
Em Taubaté, o Museu Histórico, Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato funciona no antigo casarão pertencente à família do escritor e é popularmente conhecido como Sítio do Picapau Amarelo.
Já no município de Monteiro Lobato, a antiga Fazenda Buquira foi residência do escritor entre 1911 e 1917. O local também é divulgado atualmente como Sítio do Picapau Amarelo e preserva a memória do período rural que ajudou a alimentar o imaginário presente em suas obras.
É importante lembrar que o Sítio de Dona Benta é um universo literário, mas as paisagens, experiências e personagens do interior do Vale do Paraíba participaram da formação desse imaginário.
E existe uma ligação direta com Caçapava
Essa talvez seja uma das partes menos conhecidas dessa história.
Em 1917, depois de vender a Fazenda Buquira, Monteiro Lobato deixou registrado que seguiria provisoriamente para Caçapava, antes de se mudar definitivamente para São Paulo.
No mesmo período surgiu em Caçapava a Revista Parahyba, publicação para a qual Lobato colaborou com textos e ilustrações, chegando também a produzir capas.
Era justamente a época em que o escritor estava mergulhado na pesquisa sobre o Saci e defendia maior valorização dos elementos brasileiros na arte e na cultura.
Há ainda outra curiosidade histórica: o antigo povoado de Buquira, que daria origem ao atual município de Monteiro Lobato, nasceu em uma região historicamente ligada aos territórios de Caçapava e Taubaté.
Ou seja: quando falamos da formação cultural e literária que ajudou a transformar o Saci e outros personagens em símbolos nacionais, Caçapava não está tão distante dessa história quanto muita gente imagina.
Em Caçapava, o folclore continua vivo
E folclore não significa apenas lendas ou criaturas fantásticas.
Folclore é também o conhecimento transmitido entre gerações: música, dança, culinária, religiosidade, artesanato, festas, brincadeiras, expressões populares e os famosos “causos” contados de boca em boca.
Caçapava mantém exemplos importantes dessa cultura viva.
As Folias de Reis continuam reunindo famílias, músicos, mestres e devotos. Grupos da cidade participam de encontros locais e regionais, preservando cantos, bandeiras, instrumentos, histórias e rituais transmitidos ao longo das gerações.
A cidade também já realizou programações dedicadas ao folclore com apresentações musicais, contação de histórias, atividades culturais e até cortejo do Saci.
No Vale, São José dos Campos mantém ainda o Museu do Folclore, dedicado à preservação e valorização da cultura popular de São José dos Campos, Vale do Paraíba e Litoral Norte.
São demonstrações de que folclore não pertence apenas ao passado.
Ele continua sendo produzido todos os dias.
22 de agosto: um dia para lembrar de onde viemos
O Dia do Folclore é celebrado oficialmente em todo o Brasil desde 1965.
Mais do que relembrar Saci, Cuca, Iara ou Curupira, a data serve para reconhecer aquilo que um povo aprende, transforma e transmite aos seus descendentes.
No Vale do Paraíba, essa memória passa pela literatura de Monteiro Lobato, pela cultura caipira, pelas Folias de Reis, pela viola, pelas festas tradicionais, pelos artesãos, pelos contadores de causos e pelas famílias que continuam ensinando aos mais novos aquilo que aprenderam com seus pais e avós.
Em Caçapava, essa história ainda encontra uma conexão especial com um dos escritores que mais ajudaram a apresentar o folclore brasileiro às crianças.
Porque cultura não é apenas aquilo que está guardado nos museus.
Cultura é aquilo que uma geração recebe, mantém vivo e entrega para a próxima.
Neste 22 de agosto, a TV Attual celebra quem mantém nossas histórias vivas.
Viva o folclore brasileiro. Viva Caçapava. Viva o Vale do Paraíba. Viva nossa cultura.

